29 de dez de 2012

Quem Ensinou Deus a Pilotar? As origens do mito dos Deuses Astronautas


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Artigo de Gareth Medway, publicado em Magonia 57, setembro de 1996
Tradução gentilmente autorizada, colaboração de Lisângelo Berti
O livro God Drives a Flying Saucer [“Deus Pilota Um Disco Voador”] de R. L. Dione (Corgi, 1973; 1a. ed. 1969) zomba da metafísica tradicional:
… nenhum suposto sistema de lógica pode resolver as inconsistências e paradoxos inerentes à crença de que o homem é habitado por algo místico, sobrenatural e imortal chamado de alma”.
Voltando-se para a Bíblia, o que se diz dos milagres ali registrados? Dione não encontra razão para duvidar da correção da Bíblia: “…se não fosse pelas referências a milagres, a Bíblia permaneceria incontestada como uma proeza monumental em relatos históricos”.
Ele julga a possibilidade de poderes sobrenaturais absurda, portanto a única explicação é que tecnologia de discos voadores estava em ação. Admitindo isso, tudo se torna simples: Adão e Eva foram criados por engenheiros genéticos trabalhando sob a direção de Deus, que é o “líder dos mestres tecnólogos”; anjos eram astronautas; a visão de Ezequiel foi de discos voadores; assim como para a Imaculada Conceição, é “lógico supor” que Gabriel era um “especialista em biologia” que artificialmente inseminou Maria com uma agulha hipodérmica; e “o esperma utilizado pode muito bem ter sido de Deus tornando Jesus o Filho de Deus como a Bíblia ensina”.
No fim, o Deus super tecnológico de Dione mal pode ser diferenciado daquele sobrenatural dos católicos. Não temos almas, mas a tecnologia pode tornar imortais nossas mentes, as quais são eletromagnéticas por natureza: “Deus irá escolher qual de nós sobreviverá como anjos nos ceús… pela análise das anotações de nossos anjos da guarda e pelo estudo da fitas de monitoramento que estão agora mesmo registrando nossas vidas”.
Dione foi evidentemente influenciado pela igreja Romana, já que devotou todo um capítulo para Fátima e citou a Bíblia através de uma versão revisada da tradução Douay. David F. McConnell, em seu livro Flying Saucers of the Lord (“Discos Voadores do Senhor” Economy Printing Company, Miami, Horida, 1969) usou a tradução do Rei James (sendo assim presume-se que seja protestante), mas suas interpretações são muito semelhantes às de Dione:
“Exôdo 13:21 E o Senhor ia adiante deles de dia numa coluna de nuvem, para guiá-los pelo caminho, e a noite em um coluna de fogo, para os iluminar, para prosseguirem de dia e a noite. Este era um caso de disco ou discos voadores do Senhor liderando os filhos de Israel pelas vastidões do Mar Vermelho …. Salmo 97:3 Adiante dele vai um fogo que abrasa os seus inimigos em redor.. Os discos voadores do Senhor com os anjos vão a frente do Senhor e queimam seus inimigos”.

Uma Questão de Fé

Até cerca de 1950, a religião parecia estar em declínio por toda a parte, enquanto que a ciência e o materialismo avançavam, aparentemente em direção ao ateísmo universal. Uma das objeções padrão à religião era que a Bíblia é cheia de milagres, algo que o progresso da ciência tinha indicado ser impossível. O Livro de Josué registra que Deus, a pedido de Josué, parou o sol em seu movimento durante todo um dia. Em tempos antigos, isto não parecia estranho; após Newton, era difícil de acreditar.
1950 viu a publicação de Mundos Em Colisão de Immanuel Velikovsky. Apesar de seu autor poder não ter percebido conscientemente, a intenção deste livro parece ter sido a reconciliação da ciência com a religião.
Como era judeu, para Velikovsky a religião significava o Velho Testamento. Ele sugeriu que muitas das maravilhas da Bíblia poderiam ser explicadas em termos totalmente científicos como sendo catástrofes em decorrência dos deslocamentos dos planetas Vênus e Marte. Ele considerava que Vênus teria surgido apenas há alguns milênios, quando foi ejetado de Júpiter. Em cerca de 1.500 AC ele se aproximou da Terra, causando vários efeitos gravitacionais dramáticos como a separação do Mar Vermelho e a interrupção do movimento do Sol mencionada acima. Por fim ele alcançou sua presente órbita que era então ocupada por Marte. Vênus estabeleceu-se na órbita de Marte, e Marte foi afastado do Sol, passando pela Terra em meio ao período relatado no Livro dos Reis bíblico, causando posteriormente vários aparentes milagres.
O dr. Velikovsky era amigo tanto de Sigmund Freud como de Albert Einstein, e evidentemente esperava que seu nome estaria um dia ao lado deles. Ele ficou desapontado: apesar de Mundos em Colisão ter sido publicado pela respeitada editora acadêmica Macmillan de Nova York, não apenas escritores científicos o denunciaram, mas universidades ameaçaram boicotar a lista inteira de livros da Macmillan enquanto o trabalho de Velikovsky nela permanecesse. Eles então transferiram os direitos para a Doubleday, que não trabalha com livros de ensino, e apesar de todas as críticas o livro vendeu bem por décadas. Apesar de haver existido objeções perfeitamente legítimas às teorias de Velikovsky no campo astronômico, esta reação extremada levou à suspeita de que seus oponentes estavam de alguma forma cientes do propósito religioso oculto do livro, e era a isso que objetavam.
De certo modo, Velikovsky estava firmemente inserido na tradição Rabínica, na qual toda e qualquer coisa pode ser encontrada na Torá (Lei de Deus). No século 12, quando a filosofia Aristotélica tornou-se popular entre os judeus, rabinos proclamavam encontrá-la em sua totalidade nas suas escrituras. Aristóteles ensinava existirem três partes da alma: a alma animal, a alma racional, e a alma divina. Pois a palavra Bíblica Hebraica para ‘alma’ é nephesh, mas vez ou outra ruach ou neshamah, ambas significando ‘vento’ ou ‘sopro’ e são utilizadas no sentido de ‘sopro da vida’. (Gênesis 2:7: “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o neshamah da vida; e o homem foi feito nephesh vivente”.) Assim foi explicado que nephesh era a alma animal, ruach a alma racional, e neshamah a alma divina. Tendo desta maneira descoberto todo o sistema de Aristóteles inserido em seus livros sagrados, eles declararam que Aristóteles deveria ter viajado para Jerusalém e aprendido com os judeus.
Já se brincava com a ideia de Antigos Astronautas desde 1919 com Charles Fort em O Livro dos Malditos. Também se tornou uma tema regular na ficção científica. Notavelmente, em novembro de 1947, Fantastic Stories teve um conto ‘Son of the Sun‘ (Filho do Sol), na forma de uma mensagem de um extraterrestre que revela para a raça humana que a nave sendo vista pelos céus (isto foi poucos meses após o início da primeira onda de discos voadores) tem visitado a Terra há tempos: seus ocupantes foram anteriormente confundidos com deuses. Eles deixaram para trás “certos pontos de referência” no Egito e em outros lugares. O autor desta obra, ‘Alexander Blade‘, não era outro senão Brinsley le Poer Trench, em seguida autor de uma série de livros sobre o tema, iniciando com The Sky People (“O Povo Celestial”, Neville Spearman, 160) e por daí em diante.
O primeiro tratamento importante sobre o tema foi o de Desmond Leslie em Flying Saucers Have Landed(“Os Discos Voadores Pousaram”), o qual apareceu três anos após Mundos Em Colisão. Após algumas narrativas de OVNIs modernos, Leslie subitamente voltou milhares de anos atrás para a Atlântida. Naqueles dias as pessoas voavam em máquinas chamadas vimanas, sobre as quais se escreveu: “…sua superfície exterior era aparentemente sem emendas e perfeitamente lisa, e brilhavam no escuro como se cobertas com uma pintura luminosa”. (FSHL, p. 81, citando W. Scott Elliott, The Story of Atlantis “A História de Atlântida”).
Estes não foram os primeiros discos voadores: de fato, a vida humana foi trazida primeiramente para a Terra a partir de Vênus pelos Senhores da Chama, de quem Leslie citou das Stanzas of Dzyan (“Estrofes de Dzyan”):
“Os Senhores da Chama ergueram-se e preparam-se… o Grande Senhor da Quarta Esfera (a Terra) aguardava sua chegada. O inferior (Terra) estava preparado. O superior (Vênus) estava conformado..”. Sua chegada assim foi descrita: “Quando com o poderoso rugido de uma rápida descida de incalculáveis alturas, cercada pelas massas incandescentes de fogo as quais preenchiam o céu disparando línguas chamejantes, a nave dos Senhores da Chama irromperam através dos espaços aéreos. Ela se deteve sobre a Ilha Branca que repousa no Mar de Gobi, verde ela era, e radiante com as primeiras flores, como se a Terra oferecesse seu melhor e mais belo para receber seu Rei”. (FSHL, p. 166, citando Besant e Leadbeater, Man: How, Whence and Whither “Homem: Como, De Onde e Para Onde”)
Leslie comentou: “Neste fragmento temos a primeira narrativa da aterrissagem de uma grande espaçonave ou disco voador… Por mais incrível que pareça, não pode haver outro significado para esta passagem”.
Ele datou esta aterrissagem ao ano 18.617.841 AC…
Em vista destas sensacionais conclusões, alguém poderia perguntar, quão confiáveis são essas fontes? Esta questão parece não ter ocorrido a Leslie. Suas principais fontes citadas são as Estrofes de Dzyan, junto com os escritos de Annie BesantCharles LeadbeaterW. Scott Elliott e Alice Bailey. As Estrofes de Dzyan foram primeiro publicadas no livro A Doutrina Secreta de Madame Blavatsky, apresentado com a descrição: “Um Manuscrito arcaico – uma coleção em folhas de palma feitas impermeáveis a água, fogo e ao ar, por algum processo específico e desconhecido – que está diante dos olhos de quem escreve”. Infelizmente, este livro parece não ter estado diante dos olhos de mais ninguém, e a própria Madame Blavastsky provavelmente só o viu em clarividência. Portanto é razoável objetar que é uma questão de fé, ao invés de um registro histórico, aceitar sua narrativa dos Senhores da Chama. Além do mais, a informação fornecida por Besant, Leadbeater, Scott Elliot e Bailey foi também obtida por investigação psiquíca, (A data 18.617.841 estava “de acordo com as Tábuas de Brahmin”).
“Assim que abandonamos nossa própria razão e estamos dispostos a confiar na autoridade, não há fim para nossos problemas. Autoridade de quem? Do Velho Testamento? Do Novo Testamento? O Corão? Na prática, as pessoas escolhem o livro considerado sagrado pela comunidade na qual nasceram, e destacam desse livro as partes que gostam, ignorando as outras… Nenhum católico, por exemplo, levará a sério o texto que diz que um bispo deveria ser o marido de uma mulher”. (Bertrand Russel, Unpopular Essays “Ensaios Impopulares”, 1950, p. 108).
Assim, as principais fontes de Leslie foram escritores teosóficos, e mesmo que a Sociedade Teosófica queira negar, a Teosofia é de fato uma religião, com os escritos de Blavatsky, Besant e cia. sendo suas escrituras. Desmond Leslie era evidentemente um teosofista, e ele estava apenas atualizando sua religião vitoriana para incorporar o novo fenômeno dos discos voadores.
Para ser justo, ele também foi capaz de citar alguns livros inquestionavelmente antigos, principalmente oMahabharata, que menciona naves voadoras e armamentos letais tais como a “Arma de Brahma” descrita em termos comparáveis a uma bomba nuclear. Apesar do próprio Mahabharata ser um livro sagrado para os hindus. Alguns anos atrás encontrei um guru indiano que estava a caminho da Califórnia. Ele disse que seu primeiro lar foi uma caverna no Himalaia, a qual era equipada com seu próprio aparelho de televisão. Ele explicou que teve de conseguir um para ver a dramatização do Mahabharata, já que era um dever religioso assisti-la.
Para muitos ocidentais, é claro, religião significa cristianismo e escritura, a Bíblia. O surgimento em 1956 deUFO and the Bible “OVNIs e a Bíblia” de Morris K. Jessup (Citadel Press, Nova York) já não foi novidade. Ele iniciou dizendo: “Dificilmente uma semana se passa sem que um leitor atento me envie sugestões de que deveria expôr as referências bíblicas aos OVNIs e fenômenos relacionados considerados por assim dizer milagrosos”.
Jessup começou com um posicionamento: “Acredito que é hora da Igreja e da Ciência enterrarem seus respectivos machados de guerra e deixar que o cachimbo da paz intelectual ilumine enquanto ambas as partes amadurecem ao redor da fogueira da tolerância e da pesquisa objetiva”. Como um exemplo da reconciliação destes dois lados, escolhe Reis II 2:11: “E sucedeu que, indo eles andando e falando, eis que uma carruagem de fogo, e cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho”. Jessup citou um “qualificado e profundo estudioso da Bíblia” um Sr. H. Lawrence Crowell, como afirmando que “as palavras em aramaico ruach cearah deveriam ser traduzidas como ‘explosão de energia’ ao invés de ‘redemoinho’”. Ele poderia assim, oferecer uma nova versão:
“Indo eles andando e falando, eis que apareceu um OVNI, emitindo faíscas e explosões, que os separou um do outro; e Elias foi arrebatado ao céu com uma explosão de energia”.
Tendo atingido este princípio de interpretação outros milagres são facilmente explicados. Considerando passagens tais como: “… e viu; e eis que o monte estava cheio de cavalos e carruagens de fogo, em redor de Eliseu”. (Reis II 6:17); “Cavalgava um querubim e voou; sim, levado velozmente nas asas do vento”. (Salmos 18:10), Jessup comentou: “Não podemos mais nos dar ao luxo de rir destas referências como meramente “pitorescas” e alegóricas, pois elas começam a soar cada vez mais como descrições precisas de OVNIs”.

Além da Crença

Pertinente aqui é o furor, criado por Honest To God “Honesto Para Com Deus” (SCM Press, 1963) escrito pelo bispo de Woolwich, John A. T. Robinson, que propôs uma pequena revolução na teologia. Ele iniciou perguntando se fazia sentido falar de Deus “lá em cima” em um universo copernicano. Ainda que seu argumento não tenha sido demonstrado claramente, ele apresentou uma proposta de substituir a religião “supranaturalista” por uma “naturalística”. Isto significava livrar-se dos milagres e quetais que a era científica tinha tornado um obstáculo para a fé, apesar de ele estar inseguro pelo quê eles deveriam ser trocados.
A edição original de Honesto Para Com Deus foi de 6.000 cópias, mas antes do fim do ano, mais de 350.000 tinham sido vendidas, mostrando que as questões levantadas já haviam incomodado muitas pessoas. Inevitavelmente houve controvérsia e pedidos pela renúncia do bispo, mas o mais significativo é que os críticos não concordavam entre eles. Um homem escreveu para ele “Eu tenho, e milhares têm, uma imagem de Deus no céu. Os pregadores sempre falaram de um Deus lá em cima, mas agora os pregadores estão contradizendo tudo que haviam dito… Estas novas crenças arrasarão os cristãos que acreditam existir um Deus e pode muito bem ser que a Igreja em geral se divida. As palavras de fé nada mais significarão. É como de repente dizer a um jovem que acredita de todo coração no Papai Noel, ‘não existe Papai Noel, é o seu pai’. Seria o fim do mundo para eles”. (Esta citação, e os outros comentários do debate sobre Honesto Para Com Deus, SCM, 1963). C. S. Lewis, ao contrário, ponderou que o bispo estava fazendo muito barulho por nada: “Há muito nós abandonamos a crença em um Deus que está sentado em um trono, em um paraíso que possa ser situado”.
Vozes de louvor eram muito mais comuns: a esposa de um vigário disse que o bispo tinha “feito a Igreja parecer mais viva de novo, quando por anos pareceu tão insuportavelmente morta!”. Cartas expressando concordância vieram de sacerdotes, teólogos, médicos, diretores de escola e empresários. “Um político bem conhecido” escreveu: “Ler o livro, e ouvir o que se fala, tem feito mais para validar a mensagem básica cristã e a tornar relevante para mim do que todos os sermões e serviços de que ouvi falar ou compareci”.
Até a chegada do debate sobre a ordenação de mulheres esta questão foi a maior controvérsia religiosa que a Igreja da Inglaterra tinha visto neste século. O que sugere, falando de modo geral, que o britânico se sentia incapaz de acreditar em um reconfortante Deus Pai ‘lá em cima’, bem como não podia acreditar no Papai Noel. Ainda que não se convertessem simplesmente ao ateísmo (como a maioria dos materialistas esperava que fizessem) eles porém sentiam a necessidade de algum tipo novo de religião ou crença, algo para substituir o velho Deus sobrenatural. O bispo Robinson ressaltou que nunca experimentou ter “renascido” (Honesto Para Com Deus, p. 27). Deste então, o mais notável desenvolvimento dentro da Igreja tinha sido o aumento da cristandade “renascida”. Um antigo “renascido”, me conta que é perfeitamente justo afirmar que cristãos renascidos são ensinados a não pensar. Ao invés disso são instruídos a se guiar pela autoridade da Bíblia e pela inspiração do Espírito Santo. Para esta parcela em crescimento da Igreja, não pode haver conflito entre ciência e religião, já que eles simplesmente não pensam sobre esta questão.
Mas para o resto do ‘Corpo de Cristo’ o problema ainda permanece, e as igrejas convencionais, não renascidas, seguem em declínio. Assim, os Deuses Espaciais têm sido capazes de oferecer sua ajuda para preencher o vácuo deixado pela partida do Deus Pai do seu trono no céu.

Retorno dos Deuses

Poucos anos depois apareceu o mais bem sucedido livro sobre Antigos Astronautas, Eram os Deuses Astronautas? de Erich Von Daniken 1969 (1a. ed. como Erinnerungen an die Zukunst, Econ-Verlog, 1968. O título original significava ‘Memórias do Futuro’). O que parecia gritante a qualquer um familiarizado com a literatura seria a falta de originalidade do livro. A despeito de suas contínuas referências a ‘minhas teorias‘ (etc.), quase tudo em seu livro já tinha sido percebido por Desmond Leslie, Robert CharrouxPauwels eBergierW. Raymond Drake e outros. De fato, as citações de von Daniken do Ramayana e Mahabharata foram simplesmente pinçadas de “Os Discos Voadores Pousaram” (ele traduziu as versões inglesas do século 19 para o alemão, de onde Michael Heron converteu-as de volta ao inglês, assim as versões emEram Os Deuses Astronautas? foram traduzidas triplamente. Do mesmo modo, quando von Daniken escreveu: “Vista do alto, a clara impressão que a Planície de Nazca com 60 km de extensão provocou em mim foi a de um aeroporto” (Eram Os…, p. 32), ele estava provavelmente mais influenciado nesta impressão pelo “Despertar dos Mágicos” de Louis Pauwels e Jacques Bergier (Mayflower, 1971, p. 117; 1a. ed. Paris, Editions Gallimard, 1960): “Fotografias tiradas da planície de Nazca invariavelmente lembram as luzes de iluminação de um aeroporto”. Seria tedioso analisar todo o livro desta forma, mas quase tudo nele havia sido dito antes.
Então por que este livro vendeu muito mais que seus predecessores? Parte do motivo sem dúvida é que von Daniken escreve em um estilo fluente e acessível (acima da média dos autores ufológicos), ele aparentou (ainda que superficialmente) ser científico, e de fato se dispôs a visitar muitos dos lugares sobre os quais escreveu.
Diferente de Desmond Leslie e muitos outros, seu tratamento foi simples e desprovido de misticismo. Leitores do The Sky People “O Povo Celestial” de Brinsley le Poet Trench, por exemplo, puderam travar conhecimento com o Jardim do Éden (um experimento galáctico de cruzamento de espécies realizado em Marte), Atlântida, Osíris e Ísis, Abraão, folclore dos índios pele-vermelhas, Sodoma (destruída por armas nucleares), tectitas, Jericó, a explosão siberiana em 1908, e a Estrela de Belém, mas talvez tudo tenha ficado muito confuso quando ele adicionou Madame Blavatsky, Kundalini, Gnosticismo, natureza etérea, mediunidade, o significado da cruz, poderes telepáticos e a ‘jornada de volta à Bondade’.
Talvez o motivo principal tenha sido simplesmente o fato de ter sido publicado na hora e lugar certos para influenciar aqueles que, como os descontentes leitores de Honesto Para Com Deus, procuravam um Deus não sobrenatural ‘lá em cima’. Por exemplo, Darwin deixou os cristãos pouco à vontade com o Gênesis, e o bispo Robinson pouco se preocupou em defendê-lo:
“Cem anos atrás a Igreja foi forçada a esclarecer se aceitava a narrativa de Adão como história ou mito. Até então, existiram muitos teólogos (São Paulo provavelmente entre eles) que, se inquiridos a respeito, não teriam imaginado que a veracidade da história dependesse de Adão ser de fato um personagem histórico. Mas a questão é que eles não foram pressionados a tal. Não havia uma necessidade que levasse à distinção entre as categorias de história e mito. Mas com a controvérsia darwiniana sobre a evolução a necessidade tornou-se vital. Era imperativo para a apologética cristã deixar claro que o Gênesis não era uma narrativa rival da antropologia primitiva. Se a distinção não tivesse sido feita, seria virtualmente impossível continuar a pregar a fé bíblica ao homem científico moderno”.
O próprio bispo se contentou com o mito, atribuindo a Adão e Eva o papel de metáforas para Todo Homem e Toda mulher, que sempre estão sujeitos a tentação (a Serpente). “Retroceda o quanto quiser, a natureza humana terá sido sempre assim. Este é o porquê de no mito eles terem sido colocados no início”. (John A. T. Robinson, But that I can’t believe! “Mas nisso não posso acreditar!”, Fontana, 1967).
Como são felizes aqueles que podem aceitar um mito como a verdade absoluta! Os renascidos, como sempre, permanecem com a Bíblia nesta questão. Muitos deles supõem que o mundo foi criado em 4.000 AC, portanto a datação radioativa está toda errada, dinossauros e o homem de Neanderthal nunca existiram e Darwin está condenado ao inferno. Alguns até mesmo sugerem que Deus criou fósseis, do modo como foram encontrados, com a intenção de enganar (“E por isso Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam a mentira”, Tes II 2:11) com o objetivo de testar a fé dos cristãos nas escrituras.
De Volta às Estrelas ofereceu, de novo, uma reconciliação entre as escrituras e a ciência: ele toma o Jardim do Éden com um registro acurado, não dos feitos de um Senhor Deus sobrenatural, mas da manipulação genética pela qual desconhecidos cosmonautas criaram o homo sapiens a partir do homem-macaco. Mesmo versículos estranhos podem desta forma ser críveis:
“’Então o SENHOR Deus fez cair um sono pesado sobre Adão, e este adormeceu; e tomou uma das suas costelas, e cerrou a carne em seu lugar; E da costela que o SENHOR Deus tomou do homem, formou uma mulher, e trouxe-a a Adão’. Eva deve ter sido produzida em um balão de ensaio. Assim uma quantidade de desenhos em cavernas apresentando objetos similares a balões de ensaio próximos a um homem primitivo foram preservados. Poderiam inteligências alienígenas com ciência e conhecimento altamente desenvolvidos sobre as reações de imunidade biológicas dos ossos terem usado a medula de Adão como cultura celular, e levado o esperma a nela se desenvolver?”.

Assim está escrito na Bíblia

Milagres à parte, a exatidão da Bíblia tem sido assunto de disputa desde o século 18: até então, aparentemente não havia ocorrido a ninguém duvidar dela. Thomas Paine, autor de A Era da Razão, opôs-se à Bíblia pelo fato dela quase sempre retratar Deus com um louco tirano. Ele se baseia em argumentos críticos contra a suposta perfeição textual da Bíblia: o Livro de Reis (“pouco mais que uma história de assassinatos, traição, e guerras”) que na verdade contradiz-se a si mesmo: quando diz que os Reis de Judá e Israel eram ambos chamados Jorão, “um capítulo (Reis II 1:17) diz que Jorão de Judá começou a reinar no segundo ano de Jorão de Israel; e outro capítulo (8:16) diz que Jorão de Israel começou a reinar no quinto de ano do Jorão de Judá”. Tais erros são suficientes para refutar a velha afirmação de que é a palavra de Deus, ditada pelo Espírito Santo a escribas incapazes até mesmo de um simples erro clerical. Os cristãos renascidos respondem que não é possível compreender a Bíblia apropriadamente a menos que você nasça de novo em Jesus; qualquer um que levantar objeções como a citada acima ainda está sob a influência de Satã.
Escritores ufológicos estão divididos nesta questão. Alguns, como Dione, consideram-na precisa em seu todo, meramente necessitando de uma interpretação científica. Ao contrário do Gods and Spacemen in the Ancient East (“Deuses e Astronautas no Oriente Antigo”, Neville Spearman, 1968, Sphere, 1993) de W. Raymond Drake, embora contente com A Doutrina Secreta, Romances Sânscritos, Oahspe (produzido através de escrita automática por um dentista de Nova York), O Livro dos Mortos Egípcio e o Tibetano, as revelações de Aetherius através do Dr. George King, tinha dúvidas em relação ao valor histórico da Bíblia: “Egiptólogos, assiriologistas, arqueologistas de renome, homens da ciência, que devem conhecer os fatos, não encontram qualquer evidência do Êxodo… nenhum texto egípcio refere-se à milagrosa libertação mencionada na Bíblia… o Livro do Êxodo não é um registro verídico, crítico de eventos, história como escrevemos hoje… Com o devido respeito ao erudito Moisés, esta confusa narrativa religiosa em estilo inchado não faz juz a sua grande sabedoria; é duvidoso que por seu mérito literário atraísse alguma editora para publicá-lo hoje em dia”. (Ed. Mayflower, pp. 157-8).
Esta atitude é compreensível: qualquer um tentando uma revolução no pensar tenderia a desafiar os padrões aceitos e quem os estabeleceu. Se isso incluiu ‘A Bíblia está certa’, o livre pensador seria levado a questioná-la. Literatura do Antigo Oriente e obras de moderna inspiração, não tendo sido mencionadas na infância, não deveria haver motivos para duvidar delas.
Seja como for, os textos em que ele se baseou eram na sua maior parte obras religiosas de um tipo ou de outro. O mesmo é verdade para Robert Charroux. A capa para a edição original francesa do seu Le livres des Secrets Trahis (Robert Laffont, 1965) promete ter sido feito “a partir de documentos mais antigos que a Bíblia”. Estes são principalmente o Livro de Enoque e o Popol Vuh. Enoque trata dos “anjos caídos”, os quais desceram a terra, casaram com fêmeas humanas e ensinaram várias artes e ciências: isso indica “uma colonização de nosso mundo por cosmonautas” (p. 127); o conhecimento convencional, porém, posiciona o livro no período intertestamental. O Popol Vuh relata que uma mulher chamada Orejona desceu à Terra de Vênus, e deu à luz a raça humana acasalando com uma anta. Charroux aparentemente aceitou o fato por que este estava em um livro que ele supunha “mais velho que a Bíblia”.

A Verdade do Evangelho

Sobre o assunto da Imaculada Conceição, o bispo Robinson assim resumiu a posição dos céticos modernos: “Você não pode acreditar tanto assim, pode? Estrelas pairando sobre manjedouras, coros angélicos iluminando os céus, Deus vindo à Terra na forma de um homem – como um visitante do espaço exterior? Você não pode mesmo acreditar em tudo isso hoje em dia”. (But that I can’t believe! “Mas nisso não posso acreditar!”, p. 27).
A resposta do bispo foi vaga, sugerindo que a estrela e os anjos e a mãe Virgem eram “poesia”, um modo de dizer “Deus está em todo lugar”. Ele inconscientemente sugeriu a nova solução de ‘um visitante do espaço exterior‘, que seria tão entusiasticamente adotada por alguns. “O único objeto celestial a aparecer subitamente próximo o suficiente a Terra para ser visível dentro de um pequeno ângulo, que se mova orientando seguidores, que permaneça parado, é uma espaçonave controlada por uma inteligência”. (W. Raymond Drake, Gods and Spaceman throughout History “Deuses e Espaçonaves Através da História”, Sphere, 1977, p. 184) “A chegada do Cristo menino à Terra por meio de uma espaçonave é menos fantástica, mais crível, lógica e aceitável, do que o dogma etéreo ensinado pela Igreja Cristã”. (Robin Collyns, Did Spacemen Colonise the Earth? “Homens do Espaço Colonizaram a Terra?”, Mayflower, 1975, p. 163). Em 1976 W. Raymond Drake podia declarar: “Hoje as únicas pessoas preparadas para aceitar estas maravilhas do Novo Testamento como literalmente verdade parecem ser nós que acreditamos nos Discos Voadores,” (Gods and Spacemen in Anciente Israel “Deuses e Homens do Espaço no Antigo Israel”, Sphere, p. 11).
A questão da ressurreição era complicada até mesmo para os ufólogos escritores, mas não intimidou Paul Thomas (Flying Saucers Through the Ages “Discos Voadores Através das Eras”, Neville Spearman, 1965; ed. francesa, 1962, Thomas era na verdade Paul Misraki, um conhecido músico popular francês) que era católico (tal como Dione ele concedeu um capítulo a Fátima), assim como seu tradutor para o inglês Gavin Gibbons. Contudo, sua interpretação para o retorno de Jesus dos mortos não lhe recomendaria junto a Congregação para a Doutrina da Fé. Ele sugeriu que Jesus Cristo era uma ‘mutação biológica‘ produzida por experimentação genética alienígena. Na verdade, o interesse dos Anjos Astronautas pelas Crianças de Israel, desde o tempo de Abraão, era por um grupo genético o qual daria origem ao primeiro espécime da nova fase da evolução: humanos que poderiam morrer e então naturalmente voltar a vida, como foi demonstrado através da crucificação.
Se isso fosse verdade, alguém poderia esperar que Jesus tivesse sido encorajado a ter tantos filhos quanto possível: mas, como Thomas/Misraki admite, ele deixou o mundo sem crianças (o Sangue Sagrado e o Santo Graal o contradizem); então parece que por alguma razão os alienígenas decidiram fazer uma pausa antes de tornar os benefícios da imortalidade disponíveis a todos.

A vida no porvir

O outro conceito chave de uma religião é o ensinamento sobre o futuro, no qual quase sempre, os erros do presente serão corrigidos de alguma forma. Ou existe uma vida após a morte na qual recompensas e punições serão atribuídas, ou vidas futuras serão concedidas com base no comportamento passado, ou senão existirá uma Segunda Vinda, na qual o Reino Divino será trazido a Terra, e (após os perversos serem jogados no poço ardente que queimará para todo o sempre) a paz universal e a felicidade reinarão pela eternidade. Uma das profecias mais conhecidas em relação a esta última afirmação é Marcos 13:26-27: “E então verão vir o Filho do homem nas nuvens, com grande poder e glória. E ele enviará os seus anjos, e ajuntará os seus escolhidos, desde os quatro ventos, da extremidade da terra até a extremidade do céu”.
Morris K. Jessup produziu sua própria versão:
“Podemos parafraseá-la um pouco? (tal como combinar os versículos 26 e 27) A reluzente e poderosa nave mãe aparecerá por entre as nuvens e o Mestre enviará seus assistentes em naves menores, e reunirão de todas as partes da terra aqueles que sobreviveram ao impacto do cataclisma e que alcançaram temporariamente lugares a salvo, e particularmente aqueles que a Raça Pastora considerou mais adequados para a propagação e ressurgimento da humanidade em uma nova geração racial, e estes serão levados a viver por um tempo nas regiões celestiais que são o lar dos OVNIs no espaço.
Não resta muito mais a dizer, resta?”
Algumas pessoas concluiriam a partir disto tudo que não há motivos para acreditar em Deuses ou Astronautas. Na verdade tudo isso prova que as pessoas têm uma forte necessidade de algum tipo de religião, e se uma lhes é tomada eles logo procuram por outra. Mesmo os mais ferrenhos secularistas admitiriam que a crença em Deuses Astronautas é inofensiva enquanto religião: destes crentes não se espera que obedeçam a todo comando de uma classe sacerdotal, ou que queimem heréticos na fogueira. A Ciência poderá um dia ser capaz de fornecer uma explicação concreta para o impulso religioso: até lá, a fronteira entre ciência e religião permanecerá território incerto e litigioso.
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Do Púlpito
Barry H. Downing, um pastor presbiteriano em Endwell, Nova York, foi um clérigo (que provavelmente falava por muitos) que veio a favor de tais interpretações comThe Bible and Flying Saucers (“A Bíblia e os Discos Voadores” Sphere, 1973; 1a. ed. EUA, 1968). Downing foi capaz de salvar um Deus mais tradicional do trabalho dos Anjos Espaciais por meio do seguinte argumento: “Suponha que, em quinhentos anos, os humanos na Terra devam ter avançado tecnologicamente para a era espacial, a ponto de sermos capazes de viajar para um outro mundo em uma espaçonave e descobrir seres inteligentes que são cientificamente primitivos. Suponha que missionários cristãos viajem pelo espaço até este planeta para tentar converter este povo primitivo ao Cristianismo. Como estas pessoas falariam sobre nossos missionários? A Bíblia parece sugerir que os anjos são muito similares a missionários de um outro mundo”.
Deuses Estranhos
O ponto inicial do The Sirius Mystery “O Mistério de Sirius” de Robert Temple eram os Dogons, uma tribo sudanesa, de quem antropólogos franceses aprenderam tradições relatando serem visitados por criaturas vindas de Sirius.
Temple reproduziu as opiniões deles, e então tentou provar que a mesma informação era conhecida pelos antigos sacerdotes egípcios como uma tradição secreta, e mais tarde por vários filósofos gregos que teriam sido iniciados nos seus mistérios. Claro que estas tradições nunca foram escritas, e Temple teve que adivinhá-las a partir de pistas escassas. Suas fontes principais eram The Gods of the Egyptians “Os Deuses dos Egípcios” de Wallis Budge, os épicos da mesopotâmia, os Livros Herméticos, The Greek Myths “Os Mitos Gregos”, Plutarch On Isis and Osiris “Plutarco Sobre Isis e Osiris”, e os neo-platonistas. Todos estes são escritos sagrados dos pagãos, ou modernos resumos dos mesmos. Em um palpite, alguém poderia supor que Robert Temple seria ele mesmo um pagão, particularmente pelo fato de ignorar completamente a Bíblia, e sua única referência ao cristianismo seja: “As perversões do cristianismo sempre me pareceram personificar uma perversão da noção do ‘pecado’, pelo modo com que esse tal ‘pecado’ seria explorado como uma chantagem mundana aos outros seres humanos”.

Por: David Muniz
Fonte: Ceticismo Aberto