3 de mar de 2011

ILHA DO CAMPECHE










Ilha do Campeche


As obras de arte pré-históricas gravadas em paredões rochosos no litoral Catarinense desafiam a ciência


Eles viveram há provavelmente milhares de anos, num pequeno trecho de litoral pertencente ao estado de Santa Catarina. A seu respeito, sabe-se apenas que eram um povo de refinados artistas. Tudo o mais ainda é o motivo de especulação para arqueologia. Como viviam e o que quer dizer as inscrições rupestres ou petróglifos, é um mistério tão difícil de penetrar quanto a matéria prima que trabalhavam. Ao todo são 32 sítios arqueológicos conhecidos dessa cultura, 6 no continente e 26 espalhados por ilhas mais ou menos próximas da costa, algumas de acesso muito perigoso. Pela rodovia Br-101, 128 quilômetros separam hoje os pontos extrêmos em que deixaram os petróglifos, os municípios de Porto Belo e Imbituba, respectivamente ao sul e norte de Florianópolis. Um dos maiores, com 5 metros de base, encontra-se na Ilha do Campeche, notável pela riqueza de inscrições. Os desenhos guardam notável coerência não apenas pela localização, como de estilo e de técnica, o que indica terem sido obra de uma mesma cultura. Quanto aos temas dedicaram-se a relativamente poucas representações de pessoas e animais. Tinham marcada preferencia pelas formas geométricas. Quanto a técnica, praticavam a abrasão ou raspagem. Utilizando toscos cinzéis, possivelmente pedras mais duras do que as rochas que trabalhavam, fizeram traços em baixo relevo de notável regularidade, em torno de 3 centímetros de largura e 3 milímetros de profundidade. Na medida de suas forças o autodidata Keler Lucas, dá prosseguimento ao trabalho de um cientista de primeira grandeza, já falecidogaúcho João Alfredo Rohr. Biólogo de formaçào, o , o jesuíta padre acabou por tornar-se um arqueólogo, com densa folha de pesquisas realizadas em Santa Catarina. Foi trabalho dele, por exemplo, a descoberta do mais antigo vestígio humano já encontrado na região sul do pasepultura datada em 14 mil anos a. p. (antes do presente) , ís, uma localzada no município de Itapiranga, no alto Ro Uruguai, bem perto da fronteira com a Argentina, e que nada tem a ver, aliás com os artistas rupestres do litoral. Na costa catarinense, devem-se igualmente a Rohr as melhores pesquisas já realizadas sobre uma cultura bem menos antiga, cujos vestígios mais remotos aproximam-se de 5 mil anos a.p.


A cultura do Homem de Sambaqui, a mais forte candidata à autoria dos petróglifos litorâneos. O aqueólogo estudou a fundo dezenas de sambaquis, as impressionantes colinas artificiais de conchas, restos de cozinha e outras sobras do cotidiano acumuladas ao longo dos séculos por esse povo primitivo de caçadores coletores. Escarafunchando esses autênticos lixões arqueólogicos, Rohr localizou as duas mais antigas sepulturas conhecidas do Homem de Sambaqui: a da Lagoa da Conceição, com 4.300 anos a.p., e a da Praia do Pântano do Sul, com 4.515 anos a.p. , ambas na Ilha de Santa Catarina.
Igualmente improvável é a teoria de que os desenhos seriam a obra de índios Tupis- Guaranis, que os exploradores portugueses encontraram na época do descobrimento, há 500 anos, habitando o litoral catarinense, inclusive os sambaquis. Os desenhos são formas de representar algo de que seus autores pensavam, argumenta Shmitz, sucessor de Rohr. Mas o que? pergunta sem encontrar respostas. "É como uma língua que não conhecemos" compara. Por isso sugere que a interpretação seja tentada a partir da semiótica, a ciência dedicada ao estudo dos símbolos, e lamenta a falta de arqueólogos para esse trabalho no Brasil. Lucas por exemplo, impressiona-se com a semelhança entre algumas inscrições e desenhos deixados por outras culturas e civilizações antigas de lugares tão remotos e distantes quento a Bolívia, o México, os Estados Unidos, a Africa ou a Sibéria.


Texto e fotos retirados da Revista Globo Ciência - Agosto 1993 - Autores - Carlos Stegemann e José Vitor Strauss - Jornal O Globo 18/07/1999